2016: VIDAS EM OBRAS

 

Sismologia de terras guaranis batizadas de São Paulo

Chegar de avião na cidade de São Paulo já deve impressionar: um contínuo urbano de seis municípios onde habitam mais de 21 milhões de pessoas. Sexta maior cidade do mundo1, São Paulo é uma ocupação social de intenso movimento geológico superficial em terras sem terremotos.

Lévi-Strauss já havia se impressionado com a velocidade das construções sobre as construções dos imóveis da cidade. Espantou o antropólogo a falta de memória das fachadas paulistanas.

A crosta urbana permanece em estado de movimento constante pelo choque entre, de um lado, as forças modernizadoras equipadas com capital e força policial – sob a propaganda de ideais de progresso e civilização – e, de outro, a reinvenção de modos de sobrevivência das camadas marginalizadas que se avolumam exponencialmente por causa da crescente concentração de renda e a barbárie da gentrificação.

Cidade de uma fisiognomia móvel, que transforma em obsoleto aquilo que nem chegou a sedimentar forma, São Paulo se faz pela superposição de camadas. Movimento constante de ocupação, expulsão, especulação, luta e soterramento.

São Paulo, selva tropical de concreto e madeirite, é a capital da modernidade sulamericana.

Pelas ruas, passagens, becos e viadutos de São Paulo justapõem-se uma multiplicidade de fachadas, símbolos, sombras e imagens. Sobre suas faces, grafites, lambe-lambes e pixações irrompem a memória involuntária da cidade. Revelam figuras oníricas, poesias concretas, gritos da periferia, delírios maravilhosos, por vezes, assombrações de um pesadelo a espreita. O ruído das assinaturas pixadas, que então inundam as fachadas da propriedade privada, os grafites e lambe-lambes são os instantâneos de imagens do inconsciente urbano.

Em meio ao bairro da Luz da cidade de São Paulo, que comporta uma das zonas mais sombrias da cidade, a Cracolândia2, o projeto Vidas em Obras abriu operação para fazer ouvir e provocar o narrar de histórias vindas dos substratos subterrâneos aos discursos oficiais.3 Famílias partilhando minúsculos cômodos em pensões e ocupações, pessoas em situação de rua, crianças sem quintal, de modo geral, compõem a população moradora de uma região historicamente pauperizada, que, sob estigma da Cracolândia, sobrevive invisibilizada na grande metrópole.

1 A população estimada da cidade de São Paulo pelo IBGE em julho de 2017 é de 12.106.920 habitantes. Sexta cidade mais populosa do mundo, atrás de: Mumbai (Índia), Xangai (China), Karachi (Paquistão), Nova Delhi (Índia) e Istambul (Turquia).

2 A “Cracolândia” é um território um tanto móvel no espaço físico, mas com fronteiras simbólicas bem delimitadas: sobreposta a áreas de degradação econômica e imobiliária – áreas encortiçadas pelo descaso da administração pública – é o epicentro de encontro e convivência dos usuários de crack na cidade de São Paulo.

3 O projeto Vidas em Obras, com dois anos de duração, desenvolveu-se a partir de dez meses da residência artística da Casa Rodante (casadalapa) na Cracolândia para, através da somatória de múltiplas linguagens, criar painel dos moradores do bairro da Luz. Percorrendo diversas ruas na região, a casadalapa montou ateliê móvel para a produção de painéis com fotografias, poesia, grafite, stencil, lambe- lambe, microrroteiros, videos da população e suas histórias. Junto aos muros e aos imóveis decadentes, adicionava sinalização que anunciava ao transeunte desavisado: “Atenção! Pessoas morando!”.

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O projeto, seguindo a Casa Rodante4, fez corpo para abrir sala de estar pelas calçadas, criar vizinhança entre vidas e fluxos enredados por tensas relações de disputa e cooperação. Moradores, comerciantes, pensionistas, usuários, policiais (militares, civis e da guarda municipal), jornalistas, estudantes, missionários, ONGs, artistas, ativistas sociais, traficantes, imigrantes, agentes sociais e de saúde, construtoras, imobiliárias, investidores internacionais, poder estadual, projetos da prefeitura, revolvem, com forças diferentes, as camadas tectônicas do território paulistano da Luz.

Vidas em Obras foi [ainda é] operação de abrir vazão para aquilo que o progresso não consegue [mais] aproveitar: o improdutivo, o desprezado, os velhos, incapazes, drogados, as crianças das famílias moradoras das pensões e ocupações. Pessoas que vivem à margem das margens, mas nem por isso são exceção, na capital da modernidade sulamericana.5 Vidas em Obras é operação de abrir brecha para inscrever o extraordinário do cotidiano.

É articulação coletiva de rede, que se faz estendendo tranças, alianças e histórias em diversas direções. Rede de comunicação e de troca, rede de contaminações.

Vidas em Obras é um modo de fazer e de narrar. Tal como – e junto com – os catadores de lixo da cidade, os carroceiros paulistanos, recolhe o que a cidade grande rejeitou, o que ela perdeu, o que desdenhou. Nestes arquivos da orgia da divindade dos Negócios Lucrativos, faz escolhas, descobre tesouros.

Carnavaliza, então, agigantando o que parecia tão pequeno, pondo em quadro o que passava despercebido, subvertendo hierarquias, juntando cacos em relações improváveis.

Compõem sua arte de narrar com imagens e estilhaços a partir técnicas da alegoria barroca – o despedaçamento, a dispersão, o acúmulo de fragmentos -, e também com muito spray colorido e câmeras digitais. Uma arte que faz da sua obra não um objeto valioso, mas o testemunho importante de um processo de colaborações, a constituição de um espaço permeável para intervenções em múltiplos sentidos.

Epifania de encontros entre coletivos artísticos, moradores dos edifícios entregues à decadência e usuários de crack, a operação Vidas em Obras não tem nada a ver com uma iluminação sagrada – que seria a experiência do extraordinário. É, sim, um evento de iluminação profana, aquela que nos possibilita estranhar o próprio extraordinário: os sonhos da grande cidade.

Vidas em Obras é arte de corpo presente, relação tátil curiosa quanto à fundura da alma humana.

Agosto de 2017 Carolina Abreu

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